
A verdade sobre a moléstia de Michio Kushi
Cerca de um mês atrás o Restaurante Metamorfose divulgou um artigo de Tomio Kikuchi até então inédito em língua portuguesa. Nele o autor referia-se a tema deveras delicado: a impregnação do charlatanismo e misticismo na Macrobiótica, movimento que, em essência, é justamente o oposto dessas tendências degenerativas, tendo por isso mesmo uma outra denominação: Auto-Educação Vitalícia.
O artigo de Kikuchi data de 1989. Era um alerta contra o afastamento, sobretudo norte-americano, da fonte de onde brotou o que prometia ser um poderoso instrumento de autoconscientização. Kikuchi chega mesmo a citar o caso de algumas pretensas lideranças que, nesse afastamento, estavam colocando em cheque suas próprias condições fisiológicas.
O tempo passou. Em 2004 uma notícia perturbadora parecia justificar as antigas preocupações de Kikuchi: Michio Kushi, auto-intitulado líder mundial da Macrobiótica, havia contraído uma grave doença.
A declaração pública de Michio sobre o ocorrido, a carta indignada de uma seguidora e a resposta de Phiya Kushi, filho de Michio, são os preciosos registros que o Metamorfose por ora torna público no Brasil, a fim de que os leitores reflitam e tirem suas próprias conclusões.
Carta de Patrícia P.
“Acho desanimador o fato de Michio Kushi ter sofrido uma cirurgia para extirpar um câncer de cólon. Acho ainda mais desanimador ter este homem contraído câncer após longos anos de macrobiótica. Não seria a macrobiótica uma fraude?”
Declaração de Michio Kushi
Aparecendo em público pela primeira vez em cinco meses, Michio Kushi aproveitou a comemoração de Ano Novo do Kushi Institute para discorrer sobre a grave doença que o atingira.
Michio relatou que há mais de um ano começou a sentir um enrijecimento no abdômen que piorou a ponto de tirar-lhe o apetite. Como conseqüência seu peso caiu para 40 kg.
Com dor intermitente e encontrando dificuldade para cumprir seus compromissos, Michio decidiu submeter-se a exames clínicos. Após vários testes, os médicos descobriram um tumor bloqueando quase 100% de seu cólon transversal e recomendaram-lhe, o quanto antes, uma cirurgia. Michio refletiu sobre a situação e lembrou que, de acordo com a medicina tradicional do oriente, o intestino delgado forma par com o coração. Caso seu intestino delgado ficasse comprometido por causa da obstrução, ele poderia sofrer um ataque cardíaco. Optou, portanto, pela cirurgia.
Quando despertou da anestesia, Michio consultou o relógio e pareceu-lhe que não havia passado muito tempo. Inquirindo a enfermeira sobre quando sua cirurgia seria realizada, ela respondeu, para seu grande espanto, que a intervenção já havia terminado. Os médicos removeram-lhe o cólon ascendente, o apêndice, parte do cólon transverso e fixaram-lhe o intestino delgado ao que restou de cólon original. Extirparam-lhe ainda uma porção de vesícula biliar, pois havia sinais de que ela também tinha sido atingida. Testes posteriores, entretanto, constataram o sucesso completo da cirurgia, não detectando nenhum traço sequer de câncer em seu corpo.
Os médicos acreditam que em aproximadamente um ano o funcionamento do aparelho digestivo de Michio volte à normalidade. Ele já ganhou 20 kg e espera chegar ao seu peso padrão em dois meses.
Mais adiante, Michio explicou por que o câncer se formara em seu corpo, apontando os três seguintes fatores:
1 - Excesso de Trabalho:
Constantemente viajando e trabalhando sem parar, Michio frequentemente se achava acordado às 2 horas da madrugada, além de cumprir uma programação completamente diferente a cada dia. Esta rotina irregular não permitiu, evidentemente, que seu corpo permanecesse em condições adequadas.
2 - Não Observência da Dieta Macrobiótica:
Mais uma vez, em virtude de suas viagens, e desde o falecimento de Aveline, sua companheira de viagem e responsável por suas refeições, Michio encontrava dificuldades em nutrir-se com alimentos de boa qualidade. Ceava em restaurantes e, atendendo a exigências sociais, não seguia a dieta macrobiótica.
3 – Excesso de Sal:
Para compensar os alimentos extremamente Yin que era obrigado a ingerir, Michio adquiriu o hábito de salgá-los. Os efeitos cumulativos desse hábito, aliados aos fatores anteriores, contribuíram para deteriorar definitivamente sua saúde.
Mais prudente agora, Michio está controlando mais atentamente seu dia-a-dia e sua alimentação, já que pretende permanecer ativo por, no mínimo, vinte anos.
Logo no começo do evento, Michio listou um número de atividades e projetos de trabalho, comentando o crescente interesse pela macrobiótica na Hungria, Sérvia e Croácia, a publicação de novos livros no Japão e a reedição de títulos fora de catálogo nos EUA. Com relação a seu trabalho em prol da paz mundial, Michio também mencionou que 360 comunidades no Japão pretendem reunir-se a uma Federação Mundial assim que ela for criada e que espera, num futuro próximo, poder contar com o apoio de políticos simpáticos à causa do Governo Mundial, tais como o congressista Dennis Kuchinich.
Michio terminou a noite anunciando que recebera o título de Doutor pela IOND University na área de Filosofia Macrobiótica.
Resposta de Phiya Kushi
Li com interesse as várias correspondências a que tive acesso. Interessou-me particularmente a carta de Patrícia P., pois pareceu-me uma típica reação de quem tira conclusões precipitadas sem considerar todos os fatores em jogo e com um entendimento limitado da macrobiótica.
Assim, para proveito de Patrícia e dos leitores em geral, tomo a liberdade de emitir alguns comentários:
1 – O próprio Michio reconhece que não vinha seguindo a macrobiótica em virtude das constantes viagens e dos compromissos sociais cada vez mais intensos. Durante os últimos 15 anos, ele ignorou as necessidades do próprio corpo e foi além de suas limitações físicas. Sua condição crítica foi um aviso, um chamado para lembrar-lhe que ele também é humano, que está sujeito às mesmas leis que os demais e que não pode continuar a servir a humanidade sem reservar um tempo para si mesmo.
2 - Os médicos de Michio aconselharam-lhe seguir suas próprias recomendações macrobióticas a fim de melhorar sua condição.
Como adendo, eu gostaria de acrescentar que a vida é cheia de contradições – nascemos, morremos, adoecemos, recobramos a saúde ... Seguir a macrobiótica implica experiências tanto de saúde quanto de doença, embora não devamos defini-la por qualquer uma delas. Um bom critério para julgar o valor da macrobiótica seria a longevidade do praticante e sua capacidade de superar as dificuldades. Doenças e outras ameaças constituem geralmente um meio de prolongar e fortalecer a vida.
Gostaria ainda de mencionar, com a devida permissão de Michio, que apesar dos anos que passou fumando, fato bem conhecido de todos, seus recentes raios-x revelaram pulmões surpreendentemente claros, como os de um garoto de 20 anos. Não de trata de uma absolvição do tabaco, mas sim de um convite ao questionamento, dentro do espírito do “non-credo”, de fatos científicos “comprovados”. O Charak Samhita, velho texto médico da Índia, recomenda a prática de fumar como medida curativa para vários sintomas. Mais uma vez, isso não significa uma defesa das palavras de Michio, do cigarro ou um ataque aos “comprovados” danos do cigarro, do óleo de milho ou seja lá do que for. É muito mais um convite para considerar todas as possibilidades, não importando o quão improváveis e estranhas elas sejam.
Pessoalmente, se fosse forçado a escolher, acharia bem mais razoável confiar no sistema dinâmico do yin/yang e na teoria do caos do que em análises científicas ou probabilidades estatísticas para explicar ou prever o resultado dos fenômenos.
Nota do Tradutor
Sem querer meter a colher neste caldo indigesto, limito-me a uma pequena observação: se Michio evoca a lição oriental dos órgãos complementares ( coração e intestino delgado ) para justificar a entrega alienante do próprio corpo aos açougueiros de plantão, ele a esquece quando apresenta as possíveis causas do surgimento do câncer.
Fumante inveterado, Michio vangloria-se de ter pulmões imaculados, quando na verdade deveria ao menos levantar a hipótese da influência do tabaco no desenvolvimento de sua enfermidade. Pulmão e intestino grosso são, de acordo com a mesma teoria pretextada, órgãos que se influenciam mutuamente. Se o pulmão não sofreu as conseqüências do uso constante do tabaco, o que dizer do órgão que lhe é antagônico?
A “Experiência Macrobiótica” Da Dinamarca
Vítima de um ferrenho bloqueio durante a Primeira Guerra Mundial, a Dinamarca se viu seriamente ameaçada pela escassez de alimentos e pela desnutrição. Mikkel Hinhede, superintendente do Instituto de Pesquisa Alimentar, foi então nomeado conselheiro do governo dinamarquês. Hinhede não só resolveu o problema como reverteu completamente a situação.
Nos anos anteriores à guerra, a Dinamarca importara grãos a preço de banana. Os fazendeiros dinamarqueses criavam porcos, vacas e galinhas e enviavam ovos e manteiga para a Inglaterra. Os próprios dinamarqueses eram grandes comedores de carne e ovos. Depois do bloqueio, entretanto, o suprimento de grãos foi cortado: e havia mais de 5 milhões de animais domésticos e 3,5 milhões de pessoas para alimentar!
Imediatamente, Hinhade ordenou que quatro quintos dos porcos e um quinto das vacas fossem sacrificados. Desse modo, mais grãos estariam disponíveis para o consumo humano. Além disso, o consumo de carne de porco e outras carnes foi reduzido ou eliminado completamente. Hinhede também impôs limites à produção de bebidas alcoólicas, pois não tinha dúvidas de que os grãos nela utilizados teriam melhor serventia na feitura de um pão tradicional conhecido por “Kleiebrot”. Os dinamarqueses começaram a ingerir mais cereais, vegetais, verduras, feijões e frutas e menos leite e manteiga.
De outubro de 1917 a outubro de 1918, o período mais difícil da guerra, a Dinamarca tornou-se a nação mais saudável da Europa. Sob uma dieta similar à Macrobiótica, a incidência de câncer caiu aproximadamente 60% e a taxa de mortalidade diminuiu mais de 40%. Terminado o conflito, os dinamarqueses retornaram à sua dieta original e então os índices de mortalidade rapidamente voltaram aos do pré-guerra.
Fonte: Mikkel Hinhede, “The Effects of Food Restriction During War on Mortality in Copenhagen”.
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