
Autocrítica ou autocídio: o dilema atual da macrobiótica
Bill Tara
"Os dogmas têm de ser transformados em dúvidas, as respostas em questionamentos, os pontos de chegada em pontos de partida.”
Se existe uma força capaz de impulsionar o legado de Ohsawa, essa força, sem sombra de dúvida, consiste na autocrítica honesta e corajosa. Somente o questionamento do dogma em que se transformou a macrobiótica e a reflexão profunda sobre o que vem ocorrendo na prática podem livrá-la do autocídio e assegurar-lhe um lugar de destaque no futuro.
Os problemas são muitos. Creio que é preciso começar pela identificação das crenças e opiniões nucleares compartilhadas pelos macrobióticos e suas repercussões no dia-a-dia. O que ofereço aqui é uma visão sobre algumas áreas que estão a solicitar perquirições, se é mesmo vontade nossa desenvolver o potencial e a criatividade do movimento.
Investigação ou Certeza?
A primeira coisa que me atraiu quando comecei a ler Ohsawa foi a ênfase na liberdade pessoal. O descondicionamento dos padrões involucionários de agir e pensar exigia o questionamento de nossas vidas e relacionamentos, seja com os outros, seja com o planeta. As palavras de ordem eram “transmutação”, “metamorfose”, “mudança”. Se, de fato, esses termos constituem a quintessência da Macrobiótica, é forçoso admitir a existência de sérios paradoxos.
Não há como negar que, nos dias que correm, certeza absoluta, dogmatismo e infalibilidade fazem parte da atitude macrobiótica diante da saúde, cura e desenvolvimento pessoal. A idéia que fazem de nós, infelizmente verdadeira, é que temos resposta para tudo, não simplesmente uma teoria sobre as coisas, mas a resposta final! Dizem que esse comportamento tem a ver com a prática de Ohsawa de não aceitar “não sei” como resposta. Ohsawa exigia de seus discípulos respostas firmes para todas as questões.
Parece-me que Ohsawa utilizava-se desse método como uma excelente ferramenta para afiar o julgamento dos alunos. Com efeito, ele nos estimula a pensar com nossas próprias forças. O problema começa quando respostas engenhosas, mas sem respaldo algum na experiência, são aceitas como verdade absoluta.
Ohsawa tinha – e a segunda geração de representantes japoneses, sobretudo Michio Kushi, continuam tendo - uma inclinação para amplas teorizações. Em muitos casos, suas observações iam direto ao âmago do problema, oferecendo-nos uma perspectiva original e libertadora. Algumas vezes, porém, não passavam de análises superficiais cujo principal objetivo era manter a ilusão de “julgamento supremo”.
Tenho observado que para muitos macrobióticos o fato de alguém admitir que não possui resposta para tudo constitui um signo de fraqueza ou, como gostam de dizer, de “yinização”. Ora, teorias baseadas em experiências limitadas ou inexistentes devem ser identificadas como tais, sobretudo se se pretende aplicar esses falhos conhecimentos a pessoas com graves problemas de saúde, quando não entre a vida e a morte.
Quando a prioridade é ter resposta para tudo, ofusca-se a capacidade de aprender com os erros ou ajustar ou mudar aquilo que deixou há muito de ser eficaz.
Educação ou Doutrinação?
Se queres saber a quantas andam a integridade, criatividade e flexibilidade de uma pessoa, repara em sua reação ante uma crítica fundamentada. Essas qualidades humanas são a expressão mais alta de nossa capacidade para evoluir e aprender.
Dentro da comunidade macrobiótica, entretanto, críticas, embora honestas, quase sempre são interpretadas como insultos. Esta atitude defensiva acaba descartando qualquer opinião divergente como sendo o resultado ou de uma animosidade pessoal ou de hábitos alimentares. Se alguém expressa um ponto de vista de maneira enérgica, é porque vem ingerindo carne com freqüência; se alguém lança mão de uma metáfora poética para dar vazão a suas dúvidas e angústias, é porque vem ingerindo frutas em demasia. Isso reprime a manifestação de opiniões que, não raro, veiculam algo de verdadeiro.
Anos atrás encontrei crianças macrobióticas com sérios problemas por conta de falta de vitamina B 12. Como entre os macrobióticos é praxe imputar os insucessos aos indivíduos e não à teoria, as mães dessas crianças foram vergonhosamente vilipendiadas. O mínimo do que delas se falou foi: “Possuem um péssimo discernimento”, “De forma alguma praticam macrobiótica”. E, no entanto, posso afiançar que estavam, na ocasião, seguindo diligentemente as recomendações prescritas. Alguns insinuaram residir o problema nas informações incompletas transmitidas por livros ou palestras: foram abruptamente acusados de atacar autores e palestrantes. Os apuros por que passaram as crianças e seus familiares e a oportunidade que se entreabria de investigar a razão desses sofrimentos, nada disso se considerou ante a necessidade urgente de buscar uma explicação qualquer a fim de manter a aparência de “infalibilidade”.
A mesma atitude se repetiu no caso da grave doença de Aveline Kushi. Não sei quais fatores contribuíram para o desenvolvimento de seu câncer. Entraram em jogo fatores genéticos e ambientais? Tiveram peso seu trabalho, sua dieta, seu casamento? Ao menos uma coisa é certa para mim: explicar completamente o que aconteceu, como pretende a maioria, combinando apenas dois fatores – sua conhecida teimosia e seu padrão alimentar – é reduzir perversamente o problema. Negar nossos erros serve tão-somente aos interesses dos que querem manter o dogma.
A palavra latina “educare” significa “crescer”, “avançar”, “expandir-se”. Educar implica investigação, experimentação, honestidade, capacidade de reconhecer que não sabe. O oposto disso só pode ser doutrinação, submissão, clausura. Macrobióticos também adoecem. Macrobióticos também têm problemas. Nosso papel na sociedade é intransferível, mas só podemos desempenhá-lo a contento quando amadurecermos enquanto grupo, ou seja, quando aceitarmos as dificuldades com compaixão e curiosidade.
Pontos de Chegada, Pontos de Partida
Destaco a seguir seis atitudes que, uma vez assumidas, remodelarão nossa teoria e nossa prática.
1) Reavaliar o Poder do Orientador. A cura é um dos grandes mistérios da vida. A função da Macrobiótica é explorar os terrenos da cura e trabalhar para a independência de cada indivíduo. É este, entretanto, um terreno deveras pantanoso, já que fomos treinados a transferir nosso poder a profissionais, sejam estes ortodoxos ou heterodoxos.
A cura envolve questões éticas que raramente discutimos. Uma delas diz respeito aos próprios limites do tratamento macrobiótico. Uma outra refere-se ao abuso de poder que ocorre sobretudo em consultas, atendendo unicamente às necessidades egóicas dos orientadores.
2) Considerar Outras Tradições de Cura. O mundo está repleto de poderosos e eficazes sistemas terapêuticos tradicionais. Se pretendemos chegar a um conhecimento meticuloso das dinâmicas de cura, devemos aprender de várias fontes. Não existe cultura que tenha a resposta final. Essas tradições devem fazer parte da educação macrobiótica, e adaptá-las ao nosso princípio constitui o nosso desafio.
3) Duvidar das Racionalizações Científicas. A ciência é uma potência em nossa cultura, o que não impede que seja também uma armadilha. Quando se tenta criar uma “ciência macrobiótica”, perde-se o essencial. A Macrobiótica é uma arte. Reduzir nossos ensinamentos a uma série de princípios áridos e mecânicos é transformá-los num cadáver. A educação macrobiótica deveria concentrar-se sobretudo no instinto e na sensibilidade.
4) Reduzir o Medo do Alimento. Há nos círculos macrobióticos uma atitude com relação ao alimento que só poderíamos classificar de neurótica. Alimentos que não devem ser consumidos por pessoas com problemas de saúde tornam-se alimentos proscritos em qualquer situação. Esse medo do alimento não serve à saúde, mas à doença. Desconfio que muitos macrobióticos encontram-se desnutridos. A dieta torna-se tão “limpa” e o corpo tão “puro” que não há reserva para atividade física, exuberância ou criatividade, exceto talvez com a ajuda de café, álcool ou drogas recreativas. Não acho que isso seja saúde.
5) Investigar o Papel do Psicológico e Espiritual na Cura. Conhecer as dinâmicas da mente e do espírito tornou-se essencial. Tachar as emoções de “descargas” ou “sintomas de discernimento sentimental” é não dar a devida atenção para aspectos da vida cujas interferências em nossa saúde saltam à vista. Psicoterapia, psicanálise, meditação, técnicas de relaxamento podem, em muitos casos, ter um papel mais importante do que mudanças dietéticas.
6) Levar em Conta Outros Grupos que Trabalham para Salvaguardar o Planeta. Há atualmente um chamado para as questões ambientais e sociais que ameaçam a vida na Terra. Muitos estão respondendo a esse chamado, não necessariamente os comedores de arroz.
Há preconceitos de longa data que são, realmente, inaceitáveis. Não sei quantas vezes testemunhei opiniões serem desprezadas só porque partiam de carnívoros ou vegetarianos.
O historiador Vincent Harding, num dos primeiros congressos macrobióticos, já advertira-nos da mentalidade “Arca de Noé”. À tal mentalidade corresponde a idéia de que, caso estoure uma guerra ou sobrevenha um desastre ambiental, os únicos sobreviventes seriam os orizófagos, ou seja, os “comedores de arroz”. Que receita para inação!
Num de seus artigos, Alex Jack afirma algo semelhante: “Somos o governo do mundo futuro”. Não penso assim. Não somos mais que um pequeno grupo de indivíduos tentando solucionar as questões urgentes de um mundo que se transforma vertiginosamente. Se de fato desejamos dar nossa contribuição, devemos nos unir a outras organizações e grupos que militam bravamente pela saúde do planeta. Um inflado senso de importância não ajuda em nada.
* * *
Nosso horizonte, a partir de agora, são esses questionamentos. Transpassá-lo, honesta e corajosamente, é a aventura que se impõe a nós enquanto herdeiros naturais de Ohsawa.
Resposta a Bill Tara
Phiya Kushi
Não há dúvida de que as considerações de Bill Tara são importantes. Eu mesmo venho expondo idéias semelhantes em meus cursos e palestras. Entretanto, julgo um erro menosprezar o papel do alimento como catalisador biológico. Conheço Bill e sei que suas opiniões são, basicamente, uma reação a Michio e àqueles que o têm seguido cegamente num ponto ou noutro, incluindo aí o próprio Bill.
Como ele argumenta, é fundamental considerar as questões emocionais e sociais, pois influenciam inegavelmente a nossa saúde. Mas há algo mais por trás da aparentemente simplista e ingênua noção de que “o alimento é tudo”, algo que poderia ser esquecido por quem seguisse exclusivamente as sugestões de Bill.
Há, por exemplo, comprovações de que cobaias com câncer experimentam uma redução do tumor quando alimentadas com algas marinhas. Em outras experiências verificou-se também que roedores aos quais são fornecidos alimentos em abundância, apresentam mais problemas de saúde e morrem mais cedo do que aqueles que comem moderadamente. Esses animais certamente não passam pelos mesmos problemas emocionais, psicológicos e sociais que nós. Da mesma forma, cachorros com câncer têm sido curados quando tratados com as recomendações dietéticas de Michio, e mesmo os bebês ficam mais saudáveis e felizes quando se alimentam adequadamente.
Embora seja importante levar em conta vários fatores, não devemos jamais esquecer o poder da alimentação (jejue por um dia que seja e o experimentará!). E quando necessário, não deixe de respeitar, ou mesmo temer, o alimento, assim como respeitamos e tememos uma avenida perigosa em se tratando de cruzá-la.
O que acontece é que cada geração tende a apontar para as lacunas da geração precedente. Com o intuito de evitar a alternância de visões exclusivistas, devemos proceder como aquele que recua para abranger com o olhar uma grande pintura: deste lugar privilegiado, constatamos que cada geração representa um ponto de vista válido que precisa ser assimilado aos demais e o conjunto transmitido à posteridade. Ou seja, há uma maneira de ver as coisas que não comporta dualismos como certo/errado, concordar/discordar, velho/novo.
E no fim das contas, ninguém pode mesmo chegar a pensar por si próprio sem antes ter seguido cegamente o pensamento de outrem.
Aceitamos: 
Inventhado por: Inventhar Comunicação Digital: www.inventhar.com.br