2008 | 2009 | 2010

O Catalisador Transubstancial
Carl Ferré

Não precisamos de um diploma em Física, Química ou Biologia para compreender um princípio fundamental da vida saudável – a movimentação!

Lembro-me de várias coisas que ouvi ou li durante todos esses anos a respeito da movimentação. Respiramos porque nossas células precisam de oxigênio. Aquilo que aumenta o fluxo de oxigênio no organismo é benéfico; aquilo que o reduz é nocivo. Quando nos movimentamos, respiramos mais profundamente, e ao fazê-lo proporcionamos mais oxigênio para nossas células. Há algo mais simples?

A maioria das pessoas já experimentou as conseqüências da ingestão exagerada de alimento: sentimo-nos empanzinados e morosos. Se tal comportamento se torna freqüente, o corpo estocará os excessos e bloqueios serão criados. Nestas condições, a doença facilmente se instalará. Períodos de inatividade têm o mesmo resultado.

George Ohsawa e Louis Kervran escreveram sobre as Transmutações Biológicas. Embora os detalhes possam ser difíceis de entender, a teoria é bastante simples. Nosso corpo pode transmutar um elemento que possui em outro de que precisa, contanto que o calor necessário para tal operação esteja disponível. Este “calor” é proporcionado pela atividade física, pela movimentação. Com o objetivo de manter nossa capacidade de transmutação em dia, Ohsawa prescrevia a “não inatividade”.

Exercícios também fortalecem nosso sistema imunológico, protegendo-nos de doenças e estimulando o fluxo de energia vital através do corpo.
Hoje estou convencido de quão importante é a atividade física. Talvez até mais do que a própria alimentação.


Dez Razões para Eleger o Cereal Integral como Alimento Básico

Quando visitou o Ocidente pela primeira vez, Ohsawa surpreendeu-se com o fato de não possuirmos a noção de alimento principal. Os ocidentais comem caoticamente, guiados muitas vezes pelo critério individual do gosto. Cada qual elege como principal o alimento de que mais gosta. No Oriente, por sua vez, o conceito de alimento básico fundamenta-se na história biológica de nossa espécie: não foi senão o consumo de grãos que nos tornou propriamente humanos.

O cereal é nossa casa, nosso lar, nosso refúgio e nossa fortaleza. Podemos viajar, experimentar, aventurar-nos, arriscar-nos... mas nada como a volta ao aconchego do lar. Os pratos secundários saciam esse nosso impulso de explorador; através deles, viajamos pelos mais diferentes sabores (picante, ácido, amargo, salgado); através deles, chegamos mesmo a arriscar-nos, ingerindo algo mais extremo e mais perigoso; mas quando tornamos ao cereal, ao sabor autêntica e originalmente doce, sentimo-nos em casa outra vez, sentimo-nos protegidos e prontos, é claro, para uma nova viagem.

A maior dádiva que o Oriente transmitiu ao Ocidente foi a noção de alimento principal. Abrir um restaurante macrobiótico significa materializar este conceito, levando o maior número possível de pessoas a adotar o cereal integral como alimento básico.

No Metamorfose, porém, constato que muitos convivas invocam todas as razões do mundo para driblar o arroz integral. Vários devem ser os motivos desse comportamento. No entanto, destaco um que a experiência de anos me permite apontar como o de maior peso.

A vida é esforço, esforço tanto para permanecer vivo quanto para evoluir. O vir ao mundo já implica esforço, e o permanecer nele também: ao esforço de nascer segue-se o esforço de sugar avidamente o seio materno em busca da sobrevivência. Anos depois, a mastigação substitui a sugação: não é significativo o fato de nosso alimento básico exigir esforço para ser devidamente digerido e assimilado, transmitindo-nos assim, e só assim, o dom da vida? Sem esforço, sem enfrentamento, sem superação, estaremos cultivando apenas um simulacro de vida.

No entanto, numa civilização que se propõe eliminar a todo custo qualquer indício de dificuldade, torna-se fácil compreender por que todos preferem se esquivar dos problemas, por menor que sejam, a enfrentá-los.

 Apesar de tudo, ainda não desisti de tentar persuadi-los das vantagens de “enfrentar” o arroz integral. A tentativa que faço agora (será a derradeira?) consiste em divulgar todas as razões que consegui recolher para restituir aos grãos seu papel por direito.

Dez razões para eleger o cereal integral como alimento básico:

 1ª) Evidências anatômicas indicam que os grãos constituem o principal alimento do homem. Nossa dentição, por exemplo, leva a crer que 5/8 da dieta deveriam corresponder aos grãos, 2/8 aos vegetais e 1/8 a produtos de origem animal.  O comprimento de nosso intestino, comparável ao dos herbívoros, por outro lado, demonstra que a maior parte da dieta deveria provir do reino vegetal. Os carnívoros possuem o trato intestinal bastante curto, o que limita a putrefação dos resíduos deixados pela digestão da carne.

2ª) A proporção entre potássio e sódio nos grãos integrais é muito próxima da existente em nossas células – dez para um.

3ª) Os carboidratos contidos nos grãos integrais são carboidratos complexos. Durante a digestão, eles transformam-se em glicose, um açúcar simples, muito lentamente. Por isso, consumir grãos integrais não abala nosso metabolismo do açúcar, proporcionando-nos um constante e uniforme suprimento de energia.

 4ª) Quando a ingestão de proteínas ultrapassa 16% das calorias consumidas, os fluidos corporais tornam-se ácidos. O organismo tenta então dar conta do desequilíbrio desviando para os fluidos seu estoque de minerais. Um dos resultados desse processo desesperado para restabelecer a alcalinidade original das soluções é a perda de um importante mineral: o cálcio. Claro está, pois, que a proteína não pode ser o principal alimento do homem.

Por outro lado, pesquisas têm mostrado que as gorduras, saturadas ou insaturadas, causam arteriosclerose, levando a problemas cardíacos e diabetes. Embora sejam a mais concentrada fonte de energia entre os alimentos que consumimos, as gorduras também não podem exercer o papel de alimento principal.

Os carboidratos simples, por seu turno, sobrecarregam o sistema que controla os níveis de açúcar no sangue, causando hipoglicemia e diabetes.

Restam-nos, assim, os carboidratos complexos – que o corpo digere e utiliza eficientemente sem formar resíduos tóxicos - como nossa fonte principal de calorias.

Proteínas e gorduras de boa qualidade representam uma importante parcela de nossa dieta, parcela esta, porém, sempre menor se comparada à dos carboidratos complexos.

 5ª) Grãos integrais contêm principalmente - mas não apenas – carboidratos complexos. Eles fornecem também proteínas, gorduras, vitaminas e minerais. Vários nutricionistas estão redescobrindo os grãos integrais como o melhor alimento para seres humanos, haja vista o balanço de nutrientes que apresentam.

 6ª) Economicamente falando, os grãos integrais constituem a fonte mais barata de calorias e nutrientes. Compactos e secos, não deterioram nem perdem o valor nutricional quando estocados.

 7ª) Os grãos são o mais abundante alimento do mundo. Só eles podem sustentar, se comidos sob a forma não refinada, toda a população do planeta. Dado determinado pedaço de terra, nenhum outro produto nela cultivado nos proverá de tantas calorias como os grãos. Um acre de terra onde cresçam grãos poderá sustentar até 30 pessoas. Em contraste, um único boi necessita de aproximadamente 15 acres por um ano de pasto e renderá no máximo 180 quilos de carne. Considerando-se que um carnívoro consome em média 110 quilos de carne por ano, é evidente que a adoção de carne como alimento principal representa um grave problema econômico: não há terras suficientes para alimentar um planeta de carnívoros. E tal situação, como a história ensina, pode levar a sérios conflitos. Muitas batalhas no passado foram travadas por causa de terras, e o panorama atual não é dos mais animadores. A menos que adotemos os grãos como alimento principal, guerras serão inevitáveis no futuro em virtude da “escassez” de alimentos.

 8ª) Grãos – particularmente trigo, arroz e milho – têm sido usados através dos séculos como fundamento da dieta de quase todas as culturas tradicionais. O valor nutricional dos grãos já foi testado e comprovado por milhões de pessoas durante milhares de anos.

 9ª) De acordo com o Princípio Único, yang depende de yin e o atrai. Logo, o mundo animal, que é yang (incluídos os humanos), depende do mundo das plantas para seu sustento. Dentre os vegetais, os grãos são os mais yang (compactos, secos, ricos em sódio, etc.) e constituem o melhor alimento para manter uma condição yang.

 10ª) A experiência de milhares de pessoas comprova que os grãos saciam a fome e o paladar (pois são saborosos) e ainda proporcionam saúde. Basta consumi-los sob a forma não refinada, adequadamente cozidos e conscienciosamente mastigados e insalivados.

 Grãos orgânicos são preferíveis aos convencionais. Entretanto, quando não podemos contar com os primeiros, é sobre os segundos, desde que ainda preservem a película e o gérmen, que deve recair nossa escolha. Neste caso, o arroz é o grão menos contaminado por pulverizações, uma vez que cresce em água corrente, o que ajuda a minimizar a absorção de grande parte dos produtos químicos.

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