2008 | 2009 | 2010

Ao Perdedor, As Batatas!

Henry Miller reconhecera intuitivamente o despreparo de nossas lideranças. Com a pena cortante e a tinta corrosiva que lhe eram características, escreveu: “No nosso mundo, os cegos guiam os cegos”. Exemplo perfeito deste despreparo são os planos da  Organização das Nações Unidas (ONU) para 2008.

Na última quinzena de outubro, a ONU elegeu 2008 o Ano Internacional da Batata. Já podemos prever incentivos para plantar, divulgar e consumir o versátil vegetal. Inclusive, como anunciado, já contamos com um site “recheado de dados sobre a batata”. Duvido muito, porém, que em tal endereço eletrônico se encontrem informações, breves que sejam, como as que passamos a fornecer.

A batata inglesa, o tomate, a berinjela e o pimentão são vegetais pertencentes à família das solanáceas, categoria que inclui plantas tóxicas como o tabaco e a beladona. Sabe-se que a solanina enfraquece o sangue, dilata  o aparelho digestivo e provoca distúrbios no estômago e intestinos, levando inclusive ao surgimento de hemorróidas. Além disso, a batata contém ainda altos índices de potássio, o que compromete seu uso como alimento regular.

Por serem muito expansivas (yin), as solanáceas, quando consumidas por aqueles que ainda fazem uso de carnes (yang), podem trazer uma sensação momentânea de bem-estar. Com o tempo, porém, seus efeitos deletérios manifestar-se-ão inevitavelmente.

Com essa iniciativa, a ONU concorre para aumentar sensivelmente o infortúnio de um sem-número de pessoas, o que nos permite fazer um rápido comentário: lideranças autênticas são aquelas que libertam os homens de sua ignorância, proporcionando-lhes maior independência e bem-estar; já as falsas lideranças nos condenam à triste condição de perdedores, seja com relação às doenças, seja com relação à ignorância, seja com relação à dependência. A que espécie de liderança pertenceriam os dirigentes da ONU?

Ao menos aqui no Metamorfose você está a salvo tanto das falsas lideranças quanto dos falsos alimentos.

Bon appétit!


A Incomparável Lição de Ohsawa
Carl Ferré

Olhamos ao nosso redor e constatamos a existência de fenômenos separados. Mas verificamos também que cada um deles, sem exceção, possui seu oposto: calor e frio; em cima e embaixo; expansão e contração. Ao sentimos calor, buscamos o frio; ao sentimos frio, buscamos calor. Mas nem sempre é assim...

Se fico doente, procuro instintivamente recuperar-me. Mas se estou saudável, não vou, ao menos intencionalmente, ao encontro da doença. De fato, com relação a vários pares de opostos, preferimos um ao outro. Queremos saúde, e não doença; alegria, e não tristeza; paz, e não guerra; saberia, e não ignorância; amor, e não ódio; prazer, e não desprazer; liberdade, e não escravidão.

O problema é que, primeiro, não vemos senão opostos. Só depois – e só quando isso nos interessa – é que tratamos de unificá-los. Ainda por cima achamos que este é o ensinamento de Ohsawa. Nada mais distante da verdade. Ohsawa tentou ensinar-nos que a unificação vem primeiro e que a separação é só aparente. Saúde e doença, por exemplo, são a frente e o dorso da mesma realidade.

Deparamos aqui com os limites da linguagem. Possuímos uma palavra para expressar a unificação entre passado e futuro – a palavra “presente”. Mas qual vocábulo seria capaz de expressar a unificação entre doença e saúde? Carecemos desse vocábulo.*

Podemos, contudo, visualizar o que acontece na vida real não imaginatória. Consideremos uma esfera onde a saúde encontra-se no centro e a doença na periferia. Durante nossas vidas, movemo-nos dentro dos limites desta esfera. Algumas vezes estamos mais próximos da saúde e outras mais próximos da doença. Sempre, porém, temos algum grau de ambas. Todo o universo deveria ser visto da mesma maneira: como uma esfera com um fenômeno no centro e seu contrário na periferia.

O universo aceita a ambas, tanto a saúde quanto a doença, tanto a felicidade quanto a tristeza, tanto a paz quanto a guerra. E nós não deveríamos fazer diferente.

N.T.: Na verdade, parte do ensinamento do Prof. Kikuchi consiste justamente em descobrir o termo que melhor exprime a realidade tridimensional em que vivemos. Ou melhor, o termo que mais apropriadamente traduz a simultaneidade dos contrários.

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