2008 | 2009 | 2010

A Busca Patogênica da Saúde (Revisitando Ivan Illich)
por Laercio de Vita

Não conhecemos, provinda da academia, crítica mais arguta à medicina moderna do que a empreendida por um ex-sacerdote. “A Medicina institucionalizada transformou-se numa grande ameaça à saúde”: assertivas como essa, a princípio inusitada, encontramo-las a mancheias em “A Expropriação da Saúde. Nêmesis da Medicina”, obra cuja versão inicial veio a lume em 1973 pelas sábias mãos do historiador, filósofo, teólogo e ex-padre Ivan Illich.

O conceito de iatrogênese – epidemia de doenças provocadas pela própria medicina – constitui a espinha dorsal de “Nêmesis”. Neste trabalho, Illich distingue três espécies de iatrogênese, todas elas causadas pela espantosa industrialização da saúde e medicalização da vida na sociedade moderna: a iatrogênese clínica, a iatrogênese social e a iatrogênese cultural.

A iatrogênese clínica tem origem no tratamento médico propriamente dito. Advém em geral do emprego descontrolado de tecnologias as mais avançadas e do abuso de medicamentos: “Os médicos ocidentais fazem ingerir medicamentos às pessoas que anteriormente tinham aprendido a viver com suas doenças. O mau que se causa é muito pior que o mal que se cura, pois se provocam novas espécies de doenças que nem a técnica moderna, nem a imunidade natural, nem a cultura tradicional sabem como enfrentar.” Enganam-se, portanto, aqueles que pensam estar livres da doença unicamente por usufruírem dos meios mais sofisticados de diagnósticos e intervenções terapêuticas. Decerto, se é saúde autêntica que buscam, não a encontrarão por esse caminho. Conseguirão, sim, um outro tipo de satisfação, a qual não passou ao largo do olhar perscrutador de Ivan Illich: “A Medicina não tem somente funções técnicas: ela constitui-se, entre outros, num sinal de status. Um dos principais objetivos das despesas médicas é produzir satisfações simbólicas que as pessoas apreciam pelo seu preço. O consumo de cuidados preventivos é cronologicamente o último dos sinais de status social da burguesia. Para estar na moda é preciso consumir ‘check-up’”.

A segunda espécie de iatrogênese, a iatrogênese social, decorre da dependência que se alastrou pelo corpo social no que diz respeito às drogas e intervenções da medicina institucionalizada. Aspectos da vida outrora tidos como normais e circunscritos à esfera familiar e individual adquiriram caráter de distúrbio e passaram a ser alvos da medicalização difusa, como, por exemplo, o nascimento, o sexo e a morte. Desse impacto social da medicina surge a figura do “paciente”, do doente apassivado e totalmente dependente da autoridade médica. A iatrogênese social rouba da família o papel de agente responsável pela saúde de seus membros. Illich, com rara sensibilidade, identifica o funcionamento da medicina pós-industrial ao da alavanca invertida: “A grande maioria dos diagnósticos e intervenções terapêuticas estatisticamente mais úteis do que prejudiciais aos pacientes tem duas características comuns: é pouco dispendiosa e pode ser aplicada facilmente de forma autônoma no seio da célula familiar.”

Por fim, a iatrogênese cultural se caracteriza pela pulverização das tradições seculares que forneciam à humanidade vulnerável os meios eficazes de enfrentamento da dor, da doença, do envelhecimento e da morte inevitáveis. No lugar daqueles ensinamentos ancestrais, surge a figura “plenipotente” do médico que, senhor de técnicas “infalíveis”, espalha entre a massa dependente a ilusão de cura absoluta, de prazer absoluto, de juventude absoluta, de vida absoluta (já que a morte sequer é lembrada): “É o ritual médico e seu mito correspondente que transformam a dor, a enfermidade e a morte, experiências essenciais a que cada um deve se acomodar, em uma sequência de obstáculos que ameaçam o bem-estar e que obrigam cada um a recorrer sem cessar a consumos cuja produção é monopolizada pela instituição médica”.

Contudo, doze anos depois da publicação de “Nêmesis”, Illich empreende uma rigorosa autocrítica em que reconhece não ter percebido naquela ocasião um importante aspecto da iatrogênese social que já se anunciava e que veio a se instalar definitivamente como parte do estilo de vida artificial da contemporaneidade. Illich refere-se ao que alguns críticos passaram a chamar “higionomia”, a mania com a própria condição de saúde corporal: “O maior agente patogênico de hoje, acho eu, é a busca de um corpo sadio.”

Incorporada ao nosso atual estilo de vida encontra-se uma idolatria do corpo e, mais do que isso, uma idolatria da saúde. Uma ideologia da saúde sufoca-nos, veiculada que é, ardilosa e exaustivamente, pela mídia, pelas academias, pela indústria da dieta e por todos os que objetivam lucrar com esta nova mercadoria – o autocuidado.

Algo nesta segunda crítica de Illich revela-se-nos, de fato, surpreendente: as práticas de autocuidado, que a princípio representariam uma saída para a “colonização médica da vida”, mostram-se como uma nova forma de iatrogênese. A tão sonhada desmedicalização da sociedade – ironia das ironias – assume também um caráter iatrogênico. E isso porque o cuidado compulsivo com o próprio corpo, a crença na saúde como fim absoluto da existência, a negação de aspectos problemáticos da vida são, entre outros, componentes desta pseudoautonomia.

Não devemos perder a oportunidade de incluirmo-nos na crítica de Illich às diversas correntes de autocuidado. Muito da ideologia da Macrobiótica reproduz a busca delusória da perfeição, da longevidade e de uma vida livre de riscos e acidentes. Como alguém capaz de fitar-se demoradamente no espelho, escreve Illich: “A humanidade é a única espécie viva cujos membros têm consciência de serem frágeis, parcialmente enfermos, sujeitos à dor e votados à cessação radical. Somente o homem pode sofrer e ser doente”. Se pretende a Macrobiótica ser de fato uma arte de viver – sintetizando o que de melhor o Ocidente e o Oriente produziram neste sentido -, deve ela necessariamente projetar-se também como uma arte de adoecer, como uma arte de envelhecer e como uma arte de morrer.

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