
Auto-educação Ternária x Macrobiótica
Dar nome aos “bois” não é uma tarefa qualquer, senão uma arte das mais requintadas, haja vista os apuros em que se meteu George Ohsawa quando tratou de rebatizar o movimento que liderava.
Os fundamentos do que ensinava, Ohsawa extraiu-os todos da organização Shoku-Yo, a cujos quadros pertenceu na década de vinte do século passado. Segundo Herman Aihara, “shoku” significa “toda espécie de matéria e energia que nutre o homem livre”, enquanto “yo” designa “o caminho para nutrir-se munido do conhecimento de shoku”.
Quando, em 1948, formou propósito de ensinar pelo mundo afora, Ohsawa considerou estratégico europeizar o nome do movimento. Como poderia, entretanto, por melhor poeta que fosse, traduzir em poucas palavras a informação contida na expressão “shoku-yo”? A língua japonesa revelou-se-lhe então, talvez como nunca, um estopim sonoro capaz de deflagrar explosões de significado.
Diante de tarefa talvez impossível, Ohsawa se viu tentado a apropriar-se de um termo já existente. Em 1860, quando decidiu publicar sua obra máxima, o médico alemão Christolph Wilhelm von Hufeland não fez por menos: reavivou dois radicais gregos e uma universal aspiração humana, intitulando-a Makrobiotik oder die Kunst das menschiliche Leben zu Verlängern (Macrobiótica ou a Arte de Prolongar a Vida Humana). Ohsawa, obsedado naqueles tempos do pós-guerra pela idéia de desniponização, decidiu enfim vestir com roupa alheia o singularíssimo corpo de sua doutrina. Estava instalada a barafunda!
A Macrobiótica de Von Hufeland não era senão uma dieta para alcançar a longevidade. Pronunciado o vocábulo “macrobiótica”, ainda hoje são essas mesmas idéias que, de pronto, despertam em nosso cérebro. Os dicionários confirmam esse fenômeno. Lê-se no de Aurélio que macrobiótica é a arte de prolongar a vida por meio de determinadas regras de alimentação. O de Houaiss não vai muito além, acrescentando apenas que se trata de “regras dietéticas japonesas”. Duas teclas insistentemente percutidas: dieta e longevidade, dieta e longevidade, dieta e...Ironicamente, o que essa melodia sem-graça consegui fazer foi espalhar pela superfície do planeta, em vez de Matusaléns*, milhares de Pantagruéis**.
Quanta diferença entre os termos Macrobiótica e Shoku-Yo! Enquanto o primeiro alude à “dieta”, o segundo refere-se a “toda espécie de matéria e energia”; enquanto o primeiro alude à “longevidade”, o segundo refere-se ao “homem livre”. Ou seja: os “meios” do movimento Shoku-Yo não são apenas os alimentos físicos, mas também, podemos inferir, os alimentos sentimentais e mentais; seu “fim”, por outro lado, não é apenas a longevidade, mas o “homem livre”, isto é, aquele que se realiza em todas as direções contando, principalmente, consigo próprio.
A expressão Auto-Educação Ternária, que veio substituir a palavra Macrobiótica, procura recuperar e aprofundar o significado original do termo Shoku-Yo. O homem livre seria aquele que aproveita as dificuldades fisiológicas, afetivas e intelectuais para desenvolver-se. Aprendendo gratuitamente com as ameaças, ele descobre, sozinho, os segredos da vitalidade: auto-educação. A qualificação “ternária” aponta para a importância de se considerarem não só as três espécies de alimentos – mental, emocional e físico -, mas também os três sistemas a elas relacionados: nervoso, circulatório e digestivo. Impossível desenvolver-se sem desenvolver os três sistemas simultaneamente. Impossível desenvolver-se sem atinar na quantidade e qualidade das palavras, dos relacionamentos e dos alimentos que nos mantêm vivos. Ohsawa, a propósito, mesmo escrevendo em condições adversas, seja em sótãos da capital francesa, seja em rústicos bangalôs africanos, seja em frágeis embarcações indianas, sempre com o sentido de urgência, nunca deixou de mencionar em suas obras a “alimentação, o discernimento e a atividade física” como alicerces da auto-realização humana. Com boa vontade, podemos ver aí um esboço da visão ternária: a alimentação, relacionada principalmente ao sistema digestivo; o discernimento, relacionado principalmente ao sistema nervoso; e a atividade física, relacionada principalmente ao sistema circulatório. O que realmente lhe faltou foi um nome que oferecesse ao menos uma pista desse ponto de vista abrangente.
Não atribuamos à desastrada escolha de Ohsawa a totalidade dos desvirtuamentos de que somos testemunhas. Mas não duvidemos de que uma denominação mais adequada teria feito muito por nós.
* De Matusalém, patriarca bíblico que viveu, segundo a tradição, 969 anos.
** De Pantagruel, personagem comilão criado por Rebelais.
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