JAN |
FEV |
MAR |
ABR |
MAI |
JUN |
JUL |
AGO |
SET |
OUT |
NOV |
DEZ
Sob o Clarão da Morte...A Vida
Homenagem do Metamorfose à Memória de George Ohsawa no Mês de Seu Nascimento
Outubro é tempo de comemorar o nascimento de George Ohsawa. Cheguei a pensar em traduzir o artigo publicado na extinta revista indiana Kusa em que ele próprio narra as condições singulares de seu nascimento em 18 de outubro de 1893. Ohsawa, escrevendo como um poeta, pinta a paisagem desconcertante que o recebeu quando sua mãe, passeando pela velha capital Kyoto, sentiu as dores do parto e em frente aos portões de um templo deu à luz. Resolvi, no entanto, inspirado no mesmo Ohsawa, trilhar caminho diferente.
No mundo relativo em que vivemos, toda frente tem seu dorso. Se Ohsawa veio ao mundo, dele teve de retirar-se. E para fazer valer seu ponto de vista personalíssimo, decidi desviar-me das comemorações fúteis – sempre voltadas para o lado aparente, ou seja, seu nascimento – e ir em busca da parte oculta, sempre mais importante e mais instrutiva. Decidi, portanto, investigar-lhe a morte.
Nosso nascimento nada diz sobre nós mesmos. Se nascemos robustos, sadios e de parto natural, nenhum mérito nos cabe. Devemos integralmente esse milagre ordinário à nossa progenitora, que, alimentando-se, exercitando-se e ilustrando-se criteriosamente, preparou, diria mesmo à nossa revelia, nossa vinda ao mundo.
Quão diferente, porém, se nos afigura a Morte! Constitui ela nossa exclusiva criação. É ela resultado de nossas crenças, sonhos, sentimentos, vontades: é ela, em suma, o coroamento de nossa existência. Se queres saber da vida de alguém, sonda-lhe a morte.
Sobre a morte de Ohsawa um documento se destaca entre os demais: a carta enviada por sua esposa Lima à revista The Macrobiotic, em maio de 1966. Implícita nesse documento, encontra-se a visão de Ohsawa sobre a Vida e, por conseguinte, sobre a macrobiótica. Daí meu empenho em traduzi-la e veiculá-la como forma de homenagear o Sensei neste outubro de 2009.
Ohsawa concebia a Vida como doação. A saúde, para ele, estava longe de ser o fim último da existência. Hoje, transformada numa mercadoria a mais, a saúde atrai narcisistas estéreis que passam a vida enclausurados na caverna do ego. Entretanto, se a saúde é importante, é porque nos pode potencializar a ação, o sentimento e o entendimento.
Com o conhecimento que tinha, Ohsawa poderia ter chegado, tranquilamente, à idade provecta. Preferiu, contudo, em nome de um ideal, pôr em risco a própria vida a acabar como alguém rico em anos mas pobre em afetos. É o que parece sugerir-nos Herman Aihara: “Poucos anos atrás, li uma reportagem sobre um ancião russo que alcançou a idade de 163 anos. Ele nunca deixara sua terra natal nem fizera amigos fora da aldeia em que vivia. Ohsawa também poderia ter vivido mais de cem anos, se não tivesse, é claro, exigido tanto de si próprio. Mas ele não era do tipo que se contentava com uma vida apática e obtusa. A duração da vida de um homem deveria ser medida pelo grau de felicidade alcançado, pelo número de amigos que soube conquistar e pela influência que exerceu sobre seus semelhantes, mesmo após sua morte. Deste ponto de vista, Ohsawa venceu a morte.”
***********************
Queridos amigos macrobióticos de todas as partes do globo,
Que lastimável e inesperada notícia me cabe dar-lhes!
O fundador do movimento macrobiótico e mestre querido de filosofia do Extremo-Oriente, o Sr. George Ohsawa, deixou de viver às 17h30min do dia 24 de abril. Embora estivesse com ele no momento de sua repentina passagem, sinto-me incapaz de oferecer uma explicação completa acerca deste trágico episódio. Devo-lhes desculpas.
Naquele fatídico dia, o Sr. Ohsawa levantou, como sempre o fazia, às 3 horas da madrugada. Deu início às suas atividades diárias revendo artigos para sua revista japonesa e um folheto concernente ao nosso acampamento de verão, As Olimpíadas Culturais e Espirituais.
Ao meio-dia, participamos do encontro de uma nova organização macrobiótica onde o Sr. Ohsawa palestrou por cerca de uma hora. Após retornarmos a casa, às 15 horas, ele sentou-se à escrivaninha para corrigir um artigo destinado ao próximo número da revista. O dia transcorria como outro qualquer. Um pouco mais tarde, chamei-o: “É hora do jantar.” Estávamos sós. No início da refeição, o Sr. Ohsawa observou: “Hoje está tão quieto...Há tempos não desfrutávamos tamanha quietude, não achas?”
Depois de dois ou três bocados, ele levantou-se subitamente. Corri em sua direção e ele desabou em meus braços com um gemido na boca. Chequei seu pulso mas nada encontrei. Apliquei-lhe no coração a imposição de mãos e massageei-lhe as costas...ele gemeu mais uma vez.
- Sê forte - supliquei.
Tomei a iniciativa de fazê-lo beber uma xícara de shoban (banchá com shoyu). Sua pulsação, contudo, não deu o menor sinal de melhora.
- Podes reconhecer-me? – indaguei.
Sem falar palavra, balançou o Sr. Ohsawa a cabeça respondendo que sim.
- Por tudo o que é mais sagrado, não morras! – clamei.
Repetiu ele o gesto anterior.
- Devo chamar o Dr. Ushio?
À minha sugestão seguiu-se um sinal de recusa...queria-me ele para curá-lo.
Nesse ínterim, nosso amigo Sr. Okawa apareceu e pedi-lhe que ajudasse.
- Onde dói?
- Nas costas – sussurrou o Sr. Ohsawa.
O Sr. Okawa e eu nos esforçamos para aliviar-lhe o sofrimento, mas a dor persistiu.
Percebi que a situação era de fato preocupante e resolvi chamar o médico. Quando tornei ao seu lado, após contatar os doutores Ushio e Takase, o Sr. Ohsawa aspirou duas vezes e não mais se moveu. Seus olhos congelaram.
- Oh, não!
Tanto não pude acreditar que ele se tinha ido, que voltei a massageá-lo. Os doutores Ushio e Takase chegaram logo depois. Tentaram massagem cardíaca, respiração artificial e demais tratamentos em vão...já era tarde...não mais havia modo de salvá-lo. Prostramo-nos e nada dissemos. Somente dois ou três minutos tinham decorrido desde sua última expressão de dor até seu último suspiro. Pareceu-me, entretanto, que horas haviam passado. Gritei, mas não houve resposta. Tinha George Ohsawa realmente expirado? Vi minha energia esvair-se e fui ao chão aos prantos.
Como explicar a tragédia que se desenrolou ante meus olhos? Seu coração parou de bater subitamente, como se um punhal o tivesse transpassado. O exame das atividades que o Sr. George Ohsawa desenvolvia próximo à sua morte pode dar-nos, talvez, a resposta.
Estava ele tentando elaborar uma bebida macrobiótica a partir de ervas chinesas durante os três ou quatro meses que antecederam sua morte. Toda manhã, ele preparava uma nova beberagem, provava-a e oferecia-ma. Algumas vezes, a solução sabia amarga; outras vezes, ácida. Roguei-lhe, vezes sem conta, que interrompesse tais experiências; mas ele não era do tipo que desistia antes de alcançar seus objetivos:”Criarei uma bebida que saberá a licor de malte.” Além disso, ele tinha começado a usar uma erva mantida em segredo por poucos e tida como capaz de ajudar as vítimas de câncer. Logo depois ele começou a apresentar dores de cabeça, as quais eu curava com a imposição de mãos. Isso ocorreu mais de uma vez, e todas as vezes, sem exceção, eu consegui livrá-lo da dor.
Em seguida, alguns de seus cabelos caíram e ele começou a sentir prurido no couro cabeludo. Pequenas protuberâncias irromperam na parte posterior de sua cabeça poucos dias depois. Elas, porém, desapareceram após eu ter aplicado, mais uma vez, a imposição de mãos. Estes sintomas talvez fossem vestígios da filariose tropical, doença que o Sr. Ohsawa contraíra quando de sua estada na África havia cerca de dez anos. Naquela manhã do dia 24 de abril, secreções saíram de sua cabeça.
Os parasitas da filariose podem ter-se introduzido em seu coração. Ou talvez ele tenha trabalhado para além dos limites da resistência humana. Ele dormia apenas duas ou três horas por dia a fim de dar conta de seus improrrogáveis compromissos: escrever, editar, responder às cartas que vinham de todas as regiões do globo, participar de vários encontros e conferências e ajudar a organizar o movimento macrobiótico em todo o mundo. Tal rotina deve tê-lo arruinado. A causa de sua morte foi diagnosticada por quatro doutores macrobióticos japoneses como trombose arterial.
Esta participação da morte prematura de meu marido, o Sr. George Ohsawa, é feita com imenso pesar.
Ele encontrou a morte, mas seus ensinamentos, imprescindíveis para nós, encontrarão a eternidade.
Lima Ohsawa